terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Desapego: quando a solidão exulta

    
Aqueles que me amam neste mundo procuram a todo custo manter-me preso. Teu amor, porém, muito maior que o deles, é diferente, pois tu me conservas livre.
        Eles temem que eu os esqueça, e por isso nunca me deixam sozinho. No entanto, passam-se dias e dias, e tu não apareces.
        Mesmo que eu não te invoque em minhas orações, e mesmo que não te conserve em meu coração, teu amor por mim sempre fica esperando meu amor.
 (Tagore, em Gitanjali)



Encontrei o volume de bolso "Poesia Mística - Lírica breve", do poeta indiano Rabindranath Tagore, em meio aos livros de uma livraria católica. Não conhecia quase nada dele, apenas o mínimo para saber que era um "poeta místico", que teve contato com o escritor e pintor libanês Kahlil Gibran e foi traduzido para o português inicialmente por nossa poeta Cecília Meireles, a qual muito o admirava.

Nascido em Calcutá em 1861, Tagore cedo se revelou poeta, músico, teatrólogo, contista, filósofo, educador, profundamente identificado com a natureza - o que não é tão estranho se levarmos em conta a cultura oriental, na qual o homem compreende que é parte da natureza - e aberto ao infinito, ao mistério presente em tudo o que existe, numa incansável busca, pela palavra, de encontrar a unidade na pluralidade das coisas. Sua poesia se mostra como uma profunda reverência ao Criador por meio da percepção que tinha dos seres, das coisas, das situações.

No prólogo da coletânea, assinado por Ivo Stoniolo, também tradutor da obra, há uma passagem que resume bem o que foi a pessoa e a poesia de Tagore:


"Desde a adolescência foi capaz de ver e proclamar a grandeza que se esconde na pequenez, a luz no coração da treva e os grandes paradoxos da humanidade: o triunfo na derrota, a beleza no feio e, principalmente, a amizade e a predileção que Deus tem pelos pobres, humilhados e perdidos. É que o Mistério não está além ou acima de nosso mundo. Está no mais íntimo e profundo de nós mesmos. Só não o descobrimos porque não somos capazes de nos abaixarmos o suficiente para uma reverência total, chegando ao misterioso ponto em que, de uma vez para sempre, tornamo-nos capazes de ver tudo e todos com os olhos do próprio Mistério. Rabindranath foi capaz dessa reverência, e sua obra é como um guia para também nós chegarmos ao ponto da visão transfigurada."


Gitanjali (pronuncia-se guitándjali), obra que abre a coletânea, é a mais famosa coleção de poemas do autor e rendeu-lhe o Prêmio Nobel de Literatura em 1913. O título é um composto de "git", "música", e "anjoli", "oferecer". Portanto, significa "uma oferta de canções", mas, como a palavra para oferecer, "anjoli", tem uma forte conotação de devoção, o título também pode ser interpretado como "oferta de oração em música", “oferta de louvores” ou "oferenda lírica", como o próprio autor esclarece.

Hoje escolhi a canção 32 para ler e refletir, porque ela trata de algo que, para nós, se constitui frequentemente num obstáculo aparentemente instransponível: nossos apegos afetivos.

A Sagrada Escritura diz: "Não quiseste sacrifícios nem holocaustos, mas formaste-me um corpo". Somos os únicos seres dotados de corpo e alma, somos matéria e espírito amalgamados. Temos um corpo, e é por meio deste corpo que apreendemos o mundo. Nossos sentidos são a porta de entrada das realidades materiais: vemos, tocamos, ouvimos, sentimos, e tudo que se nos apresenta reverbera em nós e vai constituindo nosso ser. Porém, não somos apenas animais, movidos pelos sentidos e pelos instintos. Temos alma, temos em nós o sopro de Deus, de forma que todas as coisas que nos chegam pelos sentidos passam por este lugar de nosso ser. A questão é se estamos atentos ou não...

Se este mundo é o único mundo que, de fato, conhecemos, no sentido original da palavra, é natural que nos apeguemos às coisas e às pessoas, que tenhamos, egoisticamente, um sentimento de posse em relação a tudo. Ao mesmo tempo que queremos possuir, também desejamos ser possuídos: queremos o afeto dos outros, queremos ser lembrados, queridos, estimados, bem conceituados. Ficamos desapontados se no dia de nosso aniversário não se lembrarem de nós, se não nos cumprimentarem efusivamente por nossas conquistas, se não perceberem nossos esforços. Há quem se entristeça se não receber uma mensagem imediata  no celular em resposta ao que se falou, ou mesmo se não for acordado, obrigatoriamente, com o pontual beijo de bom dia por parte de seu cônjuge, mesmo que este não tenha tido a melhor das noites, ou ainda se não tiver suas vontades prontamente atendidas.

No entanto, nem é necessário um aprofundamento de espírito, basta mesmo a inteligência para percebermos que tudo ao nosso redor, inclusive as pessoas que estimamos, é efêmero e falível. A qualquer momento, poderemos ferir e decepcionar os outros. A qualquer momento, também eles podem fazer o mesmo conosco. E a qualquer momento, podemos passar. E o que teremos feito, além de tentar aprisionar as coisas e as pessoas?

Talvez a nossa dificuldade em aceitar o amor de Deus é exatamente porque o que conhecemos do amor se limita, invariavelmente, à nossa experiência de amor. Acabamos acreditando que Ele nos ama como nós amamos, que Ele quer nos aprisionar. Se assim fosse, Ele não seria quem é e negaria a si próprio naquilo que tem de mais essencial, a liberdade.

Tagore começa o poema expondo exatamente isso:


      Aqueles que me amam neste mundo procuram a todo custo manter-me preso. Teu amor, porém, muito maior que o deles, é diferente, pois tu me conservas livre.


Essa tensão entre a liberdade e o aprisionamento no que tange ao amor se sustenta, para nós, numa linha muito tênue. Porque o amor quer cuidar, quer estar perto, quer proteger, mas sabe que, ultrapassando a justa medida, deixa de ser amor e se torna opressão. O amor pressupõe a liberdade, e esta não existe sem sofrimento, porque implica em deixar sangrar um pouco de si para ver o outro caminhar sozinho e, nesse caminho, muitas vezes se ferir, cair, refazer-se e reinventar seu jeito de caminhar.

Fico pensando em Deus, contemplando suas criaturas, seus filhos. Cercando-nos de cuidados, protegendo-nos, olhando-nos silenciosamente e aguardando que, na liberdade com que nos criou, olhemo-lo de volta e, igualmente silenciosos, ofereçamos-lhe um sorriso de quem está de acordo...

Mas, pobres de nós, como encontraremos a justa medida, como vamos lhe sorrir de volta se nossas atenções estão atreladas a este mundo e somente a muito custo conseguimos, em instantes ínfimos, essa capacidade de “ver tudo e todos com os olhos do Mistério”?

É preciso treinar os sentidos, habituá-los ao silêncio e à solidão nos quais os véus e as máscaras caem por terra e nos permitem ver a face da verdade, convictos de que essa visão transfigurada não advém tanto do esforço pessoal, como da graça que nasce dessa abertura ao divino. Contudo, estamos mesmo dispostos a permanecer quietos, sozinhos e em silêncio? Estamos dispostos a permitir que os outros fiquem assim também?


Eles temem que eu os esqueça, e por isso nunca me deixam sozinho. No entanto, passam-se dias e dias, e tu não apareces.


O poeta explicita a carência afetiva, própria da condição humana, e a dor de querer estar sozinho para esse encontro com o Mestre e ser impossibilitado pelo incômodo da presença humana, que, de fato, é incapaz de suprir os anseios mais profundos da alma. Por outro lado, sabendo da liberdade como princípio do amor, atesta a ausência daquele a quem ama. Não parece se tratar tanto de um lamento, mas da convicção de que, sendo de naturezas e realidades tão distintas, nem sempre o encontro entre o homem e Deus se dá de modo a contentar o coração humano.

Não “aparecer” não significa, necessariamente, não estar presente. É muito possível se estar presente e não se revelar a alguém em algum lugar... É muito possível estarmos sós e não nos encontrarmos nem conosco... O estar só pode ser amedrontador, mas pode nos libertar também, se damos o passo necessário e ouvimos a voz do Mestre: “Não tenhais medo, sou Eu”.

Na passagem final do poema, a profissão de fé, a convicção dessa presença cheia de amor que também nos quer para si, também deseja nos possuir, mas livremente, sem qualquer coação, aguardando de nossa parte a vontade de corresponder:


     Mesmo que eu não te invoque em minhas orações, e mesmo que não te conserve em meu coração, teu amor por mim sempre fica esperando meu amor.

Ah, essa convicção de que há alguém que nos olha, nos ama, nos espera... Alguém que quer que nossas afeições sejam orientadas a ponto de usufruirmos de tudo sem a nada nos apegar, ter como se não tivéssemos, viver como se estivéssemos de despedida... Não somos capazes, se o próprio amor não nos vier em auxílio.

Outro dia, conversando com um padre amigo meu, falávamos dessa dificuldade em nos desapegarmos de nossos afetos. Ele me relatava o apego que sentia por seus livros, não conseguia se desfazer deles, emprestá-los ou doá-los. “Imagine dos meus afetos!”.

Muita gente sente o mesmo, seja por livros, por vinis, por sua coleção de selos ou de super-heróis. Outros se desfazem facilmente de tudo isso e muito mais, fazem longas faxinas e doam roupas, calçados, móveis, dão de suas próprias economias em vista do bem alheio. Até mesmo do corpo abrem mão, têm membros e órgãos amputados, porque “a vida vale mais do que o corpo”.

Porém Deus, que não se cansa de nos ensinar amorosamente, diz que “não tem onde recostar a cabeça”. Por que, então, quereríamos nós desfrutar disso? É doloroso abrir mão da companhia das pessoas a quem nos apegamos ou que se apegam a nós, mas somente enquanto não as vemos sob nossa ótica egoísta. No segundo capítulo de “Só Deus basta”, Slawomir Biela afirma:


“A tentação de esperar receber afeto, compreensão e dedicação apenas humanas da pessoa querida sempre volta. [...] De fato, toda a amizade humana se baseia no princípio de que o amigo nunca nos faltará, quando viermos necessitar de sua ajuda. Contudo, esta ideia é pura fantasia, porque fiel e infalível é unicamente Deus, pois o homem, se alguma vez chega a sê-lo, só o consegue por ação de Deus e de acordo com Seus desígnios. Quando Deus nos liberta dos apegos humanos, pode nos deixar ver, com toda a evidência, a fraqueza desse instrumento, do qual Ele, até ao momento, vinha se servindo, como nos querendo dizer: Eu sou o seu apoio e não essa pessoa.”


Isso não quer dizer que tenhamos que ser eremitas e nos retirar por completo da presença humana. Apenas que precisamos cultivar nosso afeto pelas pessoas de forma saudável, enxergando nelas um presente divino para que cresçamos espiritualmente. Pensar, sentir e amar à maneira de Deus não está ao nosso alcance, mas nos é possível se reconhecemos nossa frágil condição e permitimos que Ele seja em nós, como o fez Maria, como o fizeram os apóstolos, como o faz tanta gente anônima pelo mundo...

Estar só é condição necessária para perceber que há uma companhia melhor que todas as outras. Com ela, é possível cantarmos como o profeta: “exulte a solidão e floresça como um lírio!”. Só ela nos abre os olhos para o mistério que está no mais íntimo de cada um, direcionando-nos a uma afetividade ordenada, a fim de que encontremos a paz e a riqueza nos relacionamentos.




Kalliane Amorim

           

sábado, 11 de janeiro de 2020

Só Deus basta

Nada te turbe,
Nada te espante,
Todo se pasa,
Dios no se muda,

La paciencia
Todo lo alcanza;
Quien a Dios tiene
Nada le falta:
Sólo Dios basta.

Eleva el pensamiento,
al cielo sube,
por nada te acongojes,
Nada te turbe.

A Jesucristo sigue
con pecho grande,
y, venga lo que venga,
Nada te espante.

¿Ves la gloria del mundo?
Es gloria vana;
nada tiene de estable,
Todo se pasa.

Aspira a lo celeste,
que siempre dura;
fiel y rico en promesas,
Dios no se muda.

Ámalo cual merece
Bondad inmensa;
pero no hay amor fino
Sin la paciencia.

Confianza y fe viva
mantenga el alma,
que quien cree y espera
Todo lo alcanza.

Del infierno acosado
aunque se viere,
burlará sus furores
Quien a Dios tiene.

Vénganle desamparos,
cruces, desgracias;
siendo Dios su tesoro,
Nada le falta.

Id, pues, bienes del mundo;
id, dichas vanas,
aunque todo lo pierda,
Sólo Dios basta.


(Teresa de Jesus)


Teresa de Jesus, ou Santa Teresa D'Ávila, tornou-se-me conhecida por meio desse poema, quando, lá por volta dos vinte anos de idade, lecionei numa escola onde conheci um aluno que, inclinado à espiritualidade carmelita, veio me apresentar as canções da Irmã Kelly Patrícia, muitas das quais eram, na verdade, escritos de santos musicados por ela. Sendo católica, logo fui cativada por aquelas canções tão profundas na voz doce da irmãzinha. Porém muita coisa aconteceu antes de eu retomar essa oração em forma de poema.

No ano passado, acompanhando as direções espirituais de um frei carmelita, Frei Gilson, tomei conhecimento de um livro intitulado "Só Deus basta", do teólogo polonês Slawomir Biela. Imediatamente fiz relação com a poesia da madre espanhola e pensei que desse diálogo só poderia sair algo bom. De fato, à medida que acompanhava os vídeos, me punha a meditar naquelas palavras que insistentemente repetiam o quanto precisamos nos libertar dos falsos apoios que criamos ao longo da vida para que descansemos, como crianças, no colo de Deus.

Quando soube que o livro havia sido reeditado, providenciei um exemplar, que chegou rápido mas entrou na fila das leituras. Só recentemente comecei, de fato, a ler o livro. E ainda não terminei.  Como toda leitura espiritual, não é de se ler às pressas, na avidez de chegar ao fim e logo passar para a leitura seguinte. Não. É livro para ser meditado, digerido com vagar e atenção, sempre procurando relacionar as verdades ali colocadas com a nossa própria vida nessa peregrinação por este mundo.

A Bíblia diz que "Deus nos fez e somos seus", mas a verdade é que muitas vezes andamos longe demais dele e de nós mesmos, procurando fora aquilo que está dentro, como diria Santo Agostinho em suas Confissões. Nesses tempos hodiernos, então, um dos grandes males que nos acomete é deixarmo-nos levar pela enxurrada de "ruídos" que nos afastam do silêncio necessário à contemplação do sagrado, da verdade que pode nos fazer buscar o caminho de volta para nossa casa, para o lugar de onde saímos, para o coração de Deus. Não é à toa que o livro do Gênesis diz que, ao fazer o homem, Deus soprou-lhe nas narinas o espírito da vida, o seu espírito. Em nenhuma outra criatura ele fez tal gesto, de forma que podemos considerar quão preciosos somos, trazendo em nós o que de mais íntimo pode haver no Criador, sua própria essência vivificante. Se pararmos para prestar atenção na nossa própria respiração, certamente pensaremos que não somos tão autossuficientes assim, tão independentes assim, tão donos de nós assim...

Se numa simples observação como essa, podemos atestar a realidade de nossa total dependência de um Deus Criador e, além disso, Pai, por que tão facilmente nos esquecemos disso e relativizamos, quando não excluímos, as verdades sagradas de nossa existência? Por que é tão difícil viver, na prática, que realmente só Deus nos basta?

Slawomir responde, logo no início do livro:

"O homem - esse ser de coração inquieto e ávido de sonhos - quer continuamente encontrar apoio naquilo que lhe parece mensurável e concreto. E assim, esforça-se por criar para si um sistema material que lhe garanta segurança, ao mesmo tempo em que procura aceitação por parte dos outros, o sucesso e o desenvolvimento de suas capacidades. Mas, em última análise, o que ele deseja é afirmar-se, pelos seus próprios meios, como que se colocando num pedestal e elevando-se à categoria do ídolo que exige glória e serviço."

A raiz do problema reside, então, no orgulho, na vaidade, na crença de que podemos nos bastar por nossos próprios méritos. Esquecemos que "tudo é graça", como repetia la petite Therèse de Lisieux.

O autor continua:

"Enquanto tudo corre bem, vivemos iludidos quanto às nossas próprias possibilidades. Mas, um dia [...] podem sobrevir insucessos [...] Contudo, quanto mais os suportes humanos se desmantelarem, maior será a oportunidade de mudarmos a nossa forma de ver o mundo e de começarem, finalmente, a despertar em nós pensamentos baseados na fé.
[...]
O essencial é querermos interpretar todas essas experiências à luz da fé, considerando-as não como dificuldades da vida, mas, antes, como incentivos que a tornam mais fácil, pois nos lançam para os braços de Cristo e nos impelem a pedir-lhe ajuda. A partir daí, o Senhor tem campo livre para intervir, derramando as suas graças, das quais brotará o bem que, sem essas experiências dolorosas, nunca poderia se desenvolver."

É aquela velha história de que somente na falta percebemos o valor daquilo que sempre esteve ali, ao nosso alcance e para nosso deleite. Como nos curar disso? Como cantar para nossa própria alma "nada te turbe, nada te espante", diante da miséria, da fome, da doença, da falta de emprego, dos tantos insucessos da vida? Ora, se a origem do problema está no orgulho, havemos de cultivar a semente da humildade: para cada vício, uma virtude que lhe combata.

E o que é a humildade? "A humildade é a verdade", esclarece, de forma muito simples, a própria Teresa D'Ávila. E a verdade é que não podemos, heroicamente, por nossas próprias forças, desprendermo-nos de todos os nossos apoios, senão por graça divina. E a verdade é que não podemos ser humildes se não conhecemos nossas próprias limitações. É preciso ajoelharmos a alma e dizermos, de todo o coração:

"Senhor, Tu sabes que eu sou escravo daquilo que possuo. Não sou capaz de deixar nada, nem sequer as menores coisas: sou escravo delas. Mas Tu, que tudo podes, concede-me as graças necessárias para Te seguir."

Fazendo dessa uma oração diária, e olhando para cada um como alguém que trava a mesma batalha, talvez possamos aquietar nossa alma e cantarolar, pacificados:

"Quien a Dios tiene,
nada le falta:
Sólo Dios basta."




Kalliane Amorim

  

Lições de alumbramento

Estávamos andando sob a sombra de inúmeras árvores, enfileirados à beira de uma calçada, quando meu filho puxa mais forte a minha mão, com seu jeito de quem quer que eu veja algo muito importante, e me fala, deslumbrado: Mamãe, a calçada está cheia de gotinhas de sol!

Foi o suficiente para fazer-me o tempo parar e me desestabilizar em meio à correria cotidiana. Meu filho, do alto de seus três anos de idade, me ensinava que a poesia morava no deslumbramento diante das coisas sempre vistas, a mesma lição que Oswald de Andrade comentou ter seu filho lhe ensinado, a mesma que todas as crianças podem ensinar aos adultos, pobres seres privados do exercício de olhar longamente as coisas.
Olhar longamente seja lá o que for é tarefa incompatível com o mundo que criamos, nós, com nossa ânsia de tudo saber. Como vamos contemplar o escoar da luz entre as folhas de uma árvore, formando círculos no chão, como se fossem gotas de sol, se tudo grita à nossa volta para que não prestemos atenção a essas “inutilidades” que nada acrescentam ao nosso curriculum vitae?
Lembro-me agora do célebre discurso de Chaplin, em O grande ditador, quando refletia a respeito de nosso aprisionamento naquilo que nós mesmos inventamos. Criamos - quem, afinal, criou? - inúmeras tecnologias de informação e comunicação, muito úteis, sem dúvida, porém não sabemos lidar com elas, deixamo-las reinarem sobre nosso tempo e nossa vontade; adotamos como verdade que é preciso encher o currículo a qualquer custo, e pagamos alto por isso, às vezes o preço é o descuido gradativo nas relações interpessoais; acreditamos, piamente, que vamos nos salvar de nós mesmos quanto mais compromissos assumirmos e cumprirmos com louvor, esperando - pobres de nós! - os aplausos da plateia que não sabe como conseguimos fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Mas nós, como nós sabemos como alcançamos tais feitos!
Num outro passeio com meu filho, ele me perguntou o nome do arbusto de flores vermelhas que vira antes de o semáforo abrir. Míni-flamboyant, respondi-lhe. Míni-flamboão? Sim, retruquei, míni-flamboyant, porque tem a árvore grande, flamboyant, e a pequena é míni-flamboyant. A inventividade, totalmente fundada na lógica, disparou: Mas devia ser flamboinho, mamãe, porque é pequeno...
Pronto! Desarmou-me mais uma vez o meu menino, atento às coisas e às palavras. Ah, Senhor, que o tempo passe, mas não permita que ele cresça! Vou pensando, tão egoísta que sou, só para sorrir de corpo e alma com essas lições de alumbramento que meu filho me ensina. E, de pronto, retifico a oração: ah, Senhor, que o tempo passe, e ele cresça, e tenha um filho que lhe ensine também a não se esquecer de olhar, como olhar, por que olhar, e para quê.



Kalliane Amorim

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Tuas mãos

A meu filho


Em breve as tuas mãos
não mais caberão nas minhas...


Arqueadas, em posição de voo,
verei tuas mãos abertas,
à procura de paisagens
além da parede em que projetávamos
as sombras dos pássaros em noites escuras,
quando a luz de uma vela nos bastava
para alcançarmos todos os mundos...


Lembrarei como tuas mãos
remexiam a terra em minh'alma,
criando, sem saberem, uma outra mulher...
Uma outra menina, é bem verdade,
que corre pelos outonos dos meus cabelos,
de quem sequer suspeitas
tu, com tuas mãos aladas.


Ah, como desejarei, nesta hora,
que me leves como lembrança 
numa das tantas linhas 
bordadas nas tuas mãos!
Por elas talvez eu veja
o que nunca dantes percebi:
porque tocarão outro tempo,
um tempo que não vivi.


Um dia, quando em minhas mãos
não mais couberem as tuas,
toma-me pelas mãos,
minhas mãos tão pequeninas,
leva-me a passear pelas ruas,
a pé, em busca dos pássaros,
sorvendo as cores com que a luz
do sol colore o nascer da lua,
como faço contigo agora,
agora que em minhas mãos
ainda cabem as tuas.


Kalliane Amorim

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...



Acalanto

Quando a lua vem e acende
os sonhos da minha casa,
eu te ponho no meu colo,
na cadeira de balanço,
debaixo de minha asa.

E canto devagarinho
aquela cantiga doce,
como se de água e vento,
de orvalho e sentimento,
e de pólen ela fosse.

E vamos nos entendendo
tão bem dentro da canção,
que teus olhos já descansam,
sonhando alcançar a lua
com tuas pequenas mãos.

Se eu pudesse nessa hora
te dizer dessa ternura,
transbordando do meu corpo
sobre o teu, tão pequenino...
porém o instante não dura.

Então delicadamente
eu afago os teus cabelos,
temendo que te acordes,
e dissolva-se o momento
com um toque dos meus dedos.

É assim que acontece
quando a lua vem e acende
os sonhos da minha casa:
eu te guardo no meu colo
e descubro a eternidade
debaixo de minha asa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Em 2013, eu nasci como mãe. Quem passa pela experiência, sabe bem o que é sentir um verdadeiro mistério acontecendo dentro de si, um mistério divino, que se dá no silêncio, na escuridão, numa longa espera, como são as coisas de Deus.
Em meio ao trabalho - à época, lecionava em outra cidade, Apodi, a setenta e poucos quilômetros de Mossoró -, presenteava-me com o prazer de acariciar longamente o barrigão dentro do qual meu menino crescia, cantava-lhe muitas músicas, conversava com ele, mostrando-lhe coisas bonitas o que o aguardavam nesse mundo. Eram instantes de uma intimidade e uma cumplicidade tão intensas, que, se ele estivesse agitado, logo se acalmava, muito embora eu amasse sentir aqueles chutezinhos.
Quando ele nasceu, a cumplicidade continuou. Bastava cantar uma musiquinha que tudo se amainava. As preferidas eram João e Maria (Chico Buarque), Onde estará o meu amor (Chico César), Assum preto (Luiz Gonzaga) e Mãezinha do céu. Mas uma que lhe chamava a atenção e, em vez de fazê-lo dormir, deixava-o com os olhos vidrados nos meus era The scientist (Coldplay).
Às vezes, revezávamos, eu e o pai, nas cantigas de ninar. Mas o pequeno, já um pouquinho maior, falando pelos cotovelos, dizia: "Papai, não canta! Quer mamãe!"
E rolávamos de rir com a sinceridade do nosso pitoquinho de gente.
Foi lembrando desses momentos que escrevi esse poema para meu filho, um poema que na verdade retrata o sentimento de qualquer pai ou mãe que se põe a cantar para o filho que adormece em seu colo. Há algo de sublime, algo que enleva e eleva o coração em observar uma criança a dormir em nossos braços.
Poderia o mundo estar em guerra, mas diante de uma criança que dorme, haveria que se baixar um decreto de silêncio e paz, pois nada há de mais importante para o homem que contemplar a si mesmo na simplicidade e na inocência da vida.

Excelente dia a todos!

Kalliane Amorim



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Cordel: poesia que transforma

A literatura de cordel me conquistou cedo, nem lembro quando foi a primeira vez em que li as clássicas sextilhas de rimas alternadas pela primeira vez. Se vierem me perguntar, faço como o matuto Chicó: Não sei, só sei que foi assim. 

E foi bem assim:

Quando nóis dois se avistemo,
nossos ói se impariaro.
Nossos chêro se cheraro
quando nóis dois se abracemo.

Um falava, o ôto ouvia,
era tanto alumbramento
que as palavra, feito um vento,
nossos corpo estremecia.

Pense num contentamento
quando nós dois se encontrava,
nossos ói chega briava,
tamanho era o sentimento.

Foi assim que a Poesia
se tornou, num só momento,
minha vida, meu sustento,
nas dor e nas alegria.

Eu sinto um afrouxamento
nos sentido, quando ela vem
derramar em mim seu bem,
ser meu sal, ser meu fermento.

Vixe Maria, é um bem-querê
que chega dói aqui dentro,
que me deixa mais sedento
de vontade de viver!

Ah, quando nóis se avistemo
e nossos ói se impariaro,
nossas vida se ajuntaro
e nunca mais nos separemo!

Bendito seja esse dia,
em que nóis dois se encontremo
e um eterno amor juremo:
o poeta e a poesia!

Valorizar o cordel é valorizar não apenas uma longa tradição da poesia oral que perpassou séculos até chegar ao Nordeste brasileiro e aqui montar, enfim, sua tenda, mas valorizar o que temos de mais belo, que é a cultura e a língua de toda uma comunidade. Fernando Pessoa dizia, poeticamente, que quem quiser ser universal que cante a sua terra. Pois assim é o cordelista, o repentista, o embolador de coco, quer seja num livro impresso, num desafio em meio de feira, num programa de TV, seja onde for. Cantando a sua terra e a sua gente, levam-nas ao conhecimento de quem jamais saberia delas, não fosse a arte da palavra em versos.  

Como toda arte, para ser bem apreciada, precisa ser bem conhecida. Quem não fala bem da literatura de cordel, certamente não conhece a fundo sua estrutura, seus temas, suas variações. Aliás, isso serve para qualquer assunto. Um ditado oriental diz que a ignorância é vizinha da maldade, então quando não se sabe um assunto nem se procura saber a respeito dele, há o perigoso risco de fazer julgamentos preconceituosos.

Há um tempo, ganhei de presente de um amigo um livro intitulado Acorda Cordel na Sala de Aula, um projeto louvável implantado nas escolas cearenses para divulgar o conhecimento da história da literatura de cordel no estado. Os capítulos traziam informações a respeito dos cordelistas que fizeram história recontando clássicos da literatura universal e registrando causos do sertão, como também descreviam as diversas modalidades de cordel, desde as tradicionais sextilhas às décimas em martelo agalopado, inclusive com atividades para que os estudantes pudessem desenvolver seus próprios poemas de cordel e suas próprias xilogravuras.

Para mim, uma das modalidades mais belas do cordel é o galope à beira-mar. O nome, por si só, já é uma imagem poética, não é?
A alternância das sílabas átonas e tônicas, conferindo o ritmo agalopado, os esquemas de rimas, a ambientação litorânea, e o fecho de cada estrofe com a expressão "na beira do mar", dão um tom de lirismo que contrasta com a temática predominantemente sertaneja do cordel.

Mas é claro que a vivência com a literatura de cordel, pela leitura e, especialmente, pela escuta, é primordial para o desenvolvimento de uma sensibilidade a esse estilo de poesia. Até porque o que faz com que nos apaixonemos por qualquer texto literário é, antes de tudo, sua beleza, é ela quem primeiro nos toca, só depois as questões formais entram em cena. Ninguém forma um bom leitor ou um bom autor por meio de regras frias e impessoais, mas pelo vigor de uma leitura viva, pulsante, fascinante, que arrebata os sentidos e demarca os territórios íntimos do ser humano.

A poesia tem um poder transformador, porque fala de um modo que a nossa alma compreende, por meio de imagens. Somos seres imagéticos por excelência, e a palavra tem esse poder de reverberar na nossa imaginação de forma muito singular. Quantas vezes, pela leitura de um poema, não somos como que atingidos por raios luminosos que nos fazem enxergar pessoas, situações, lugares, sob outra ótica? Eu mesma já perdi a conta de quantas vezes tal "epifania" me ocorreu.

Para terminar, deixo como sugestão de leitura dois livros de cordelistas contemporâneos, um deles meu conterrâneo, potiguar, Antonio Francisco, dignamente integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira de Patativa do Assaré; o outro, nosso querido Bráulio Bessa, orgulhando o Ceará e o Brasil pela palavra transformadora, que alcança milhões de pessoas por meio da TV e das redes sociais.




"Deus nunca se afastou
de nenhum dos filhos seus,
nem nunca deixou de amar
reis, rainhas e plebeus.
O homem é quem se afasta
do braço aberto de Deus."
(Antonio Francisco)


"Pare, não tenha pressa,
não carece acelerar,
a vida já é tão curta,
é preciso aproveitar
essa estranha corrida
que a chegada é a partida
e ninguém pode evitar!"
(Bráulio Bessa)


Excelente leitura!
Até a próxima!


Kalliane Amorim.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O que é bom, e amado, e belo


Releio o Diário de Anne Frank, na data de 7 de março de 1944, quando ela, pouco antes de completar 15 anos, avalia sua vida antes de ir para o esconderijo no Anexo Secreto e depois de estar lá, vivendo sob a tensão de ter o prédio invadido por agentes da SS ou de morrer em meio aos bombardeios em Amsterdã.
            Anne, que lá se escondera com sua família em 1942, já não era mais a mesma. O sofrimento, advindo de privações das mais variadas ordens, fez com que ela amadurecesse em pouco tempo. Não podia se dar ao luxo de sair do esconderijo, nem mesmo se estivesse doente, não podia ouvir o rádio num volume que não fosse o mínimo, não podia abrir as janelas, exceto uma pequena fresta e em determinadas horas do dia, não podia fazer barulho ao andar ou realizar quaisquer afazeres dentro do Anexo. E o que podia fazer aquela garota que sonhava em ser jornalista e escritora? Ter esperanças, ler livros, muitos livros - As pessoas comuns não sabem quanto os livros significam para alguém escondido, ela afirma em seu diário -, além de estudar idiomas, interessar-se por mitologia, procurar entender a si mesma em fase tão conturbada como é a adolescência, e escrever nas páginas de seu diário de capa xadrez.
No relato que ela faz, avaliando a si própria, revela:
 Apesar de tudo, eu não era totalmente feliz em 1942; costumava me sentir abandonada, mas, como passava o dia inteiro na agitação, nem pensava nisso. Eu me divertia ao máximo, tentando, consciente ou inconscientemente, preencher o vazio com piadas.
Mais à frente, ela confessa:
Vou me deitar, depois de terminar as orações com as palavras Ich danke dir für all das Gute und Liebe und Schöne (Obrigada por tudo que é bom, amado e belo) e me encho de alegria.[...] Nesses momentos, não penso na infelicidade, e sim na beleza que permanece. É nisso que eu e mamãe somos muito diferentes. Seu conselho diante da melancolia é: 'Pense em todo o sofrimento que há no mundo e agradeça por não fazer parte dele.' Meu conselho é: 'Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz.' Não acho que o conselho de mamãe possa ser bom, porque o que você deveria fazer caso participasse do sofrimento? Ficaria totalmente perdida. Pelo contrário, a beleza continua a existir, mesmo na desgraça.
O relato de Anne é de uma sensatez, de um equilíbrio e de uma verdade que muitas vezes descobrimos se e somente se passarmos pela dor, porque ela educa. O sofrimento pode extrair de nós o melhor sumo, mas não precisamos descartar o bagaço ou fazer de conta que ele não existe. Se antes vemos uma Anne - e nesse ponto Anne é qualquer um de nós - preenchendo seu vazio com piadas e brincadeiras, ocupando a própria mente com tudo o que a impedia de mergulhar em si própria, em meio às muitas distrações das quais escolhia não se distanciar, ainda que por breves momentos, vemos depois uma outra Anne, agradecendo por tudo que é bom, amado e belo, em plena guerra. Em momento algum, existe negação de si, mas uma consciência que vai se aprofundando, vai fazendo essa viagem interior proporcionada pelo sofrimento. O toque delicado nem sempre acorda as pessoas, diria Kahlil Gibran. É preciso, para algumas (desconfio que quase a totalidade delas), experimentar os golpes da vida em sua maior intensidade e tirar deles algum proveito.
Porque no fim das contas, quando conseguimos olhar a vida como espectadores, de fora, distanciando-nos do redemoinho em que inúmeras vezes nos encontramos, vemos que tudo contribui para que sejamos o que somos - cheios de virtudes e defeitos - e possamos ver o outro da mesma maneira, com um olhar mais compassivo e altruísta. E então compreendemos que as coisas se tornam boas, amadas e belas a partir da nossa perspectiva, quando usamos as lentes da verdade interior que sussurra dentro de nós e que teimamos em abafar, iludidos pelas luzes exteriores, como insetos em torno de uma lâmpada.
O mais bonito nesse processo é que quem retorna dessa viagem interior nunca mais é o mesmo. Seus olhos se abrem de tal forma para a vida que seu maior desejo é possibilitar aos outros degustar do mesmo manjar com que se deliciou nesse percurso de encontro consigo próprio. Felizmente, essa é uma tarefa que cabe a cada um. Ninguém pode vivê-la por ninguém. Só nos é possível mostrar com a própria vida essa beleza que continua a existir e que é tão atrativa e desafiadora. Só nos é possível compartilhar, porque o que é bom, e amado, e belo - como diz, com outras palavras, meu amigo e conselheiro padre Guimarães - é para ser dividido com os demais. Só nos é possível estender o convite, dizendo: Esta é a manhã da consciência! / Voemos juntos! Desperta! Segue-me!, fazendo ressoar os versos do poeta oriental Kabir. O primeiro passo nessa aventura em busca de sua essência, porém, depende da escolha de cada um.


Kalliane Amorim

Ribeira

Quando a Poesia e a Música se encontram, nasce a Beleza. E esta sempre é um caminho de encontro com Deus, se carrega consigo a Bondade e a V...