sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O que é bom, e amado, e belo


Releio o Diário de Anne Frank, na data de 7 de março de 1944, quando ela, pouco antes de completar 15 anos, avalia sua vida antes de ir para o esconderijo no Anexo Secreto e depois de estar lá, vivendo sob a tensão de ter o prédio invadido por agentes da SS ou de morrer em meio aos bombardeios em Amsterdã.
            Anne, que lá se escondera com sua família em 1942, já não era mais a mesma. O sofrimento, advindo de privações das mais variadas ordens, fez com que ela amadurecesse em pouco tempo. Não podia se dar ao luxo de sair do esconderijo, nem mesmo se estivesse doente, não podia ouvir o rádio num volume que não fosse o mínimo, não podia abrir as janelas, exceto uma pequena fresta e em determinadas horas do dia, não podia fazer barulho ao andar ou realizar quaisquer afazeres dentro do Anexo. E o que podia fazer aquela garota que sonhava em ser jornalista e escritora? Ter esperanças, ler livros, muitos livros - As pessoas comuns não sabem quanto os livros significam para alguém escondido, ela afirma em seu diário -, além de estudar idiomas, interessar-se por mitologia, procurar entender a si mesma em fase tão conturbada como é a adolescência, e escrever nas páginas de seu diário de capa xadrez.
No relato que ela faz, avaliando a si própria, revela:
 Apesar de tudo, eu não era totalmente feliz em 1942; costumava me sentir abandonada, mas, como passava o dia inteiro na agitação, nem pensava nisso. Eu me divertia ao máximo, tentando, consciente ou inconscientemente, preencher o vazio com piadas.
Mais à frente, ela confessa:
Vou me deitar, depois de terminar as orações com as palavras Ich danke dir für all das Gute und Liebe und Schöne (Obrigada por tudo que é bom, amado e belo) e me encho de alegria.[...] Nesses momentos, não penso na infelicidade, e sim na beleza que permanece. É nisso que eu e mamãe somos muito diferentes. Seu conselho diante da melancolia é: 'Pense em todo o sofrimento que há no mundo e agradeça por não fazer parte dele.' Meu conselho é: 'Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz.' Não acho que o conselho de mamãe possa ser bom, porque o que você deveria fazer caso participasse do sofrimento? Ficaria totalmente perdida. Pelo contrário, a beleza continua a existir, mesmo na desgraça.
O relato de Anne é de uma sensatez, de um equilíbrio e de uma verdade que muitas vezes descobrimos se e somente se passarmos pela dor, porque ela educa. O sofrimento pode extrair de nós o melhor sumo, mas não precisamos descartar o bagaço ou fazer de conta que ele não existe. Se antes vemos uma Anne - e nesse ponto Anne é qualquer um de nós - preenchendo seu vazio com piadas e brincadeiras, ocupando a própria mente com tudo o que a impedia de mergulhar em si própria, em meio às muitas distrações das quais escolhia não se distanciar, ainda que por breves momentos, vemos depois uma outra Anne, agradecendo por tudo que é bom, amado e belo, em plena guerra. Em momento algum, existe negação de si, mas uma consciência que vai se aprofundando, vai fazendo essa viagem interior proporcionada pelo sofrimento. O toque delicado nem sempre acorda as pessoas, diria Kahlil Gibran. É preciso, para algumas (desconfio que quase a totalidade delas), experimentar os golpes da vida em sua maior intensidade e tirar deles algum proveito.
Porque no fim das contas, quando conseguimos olhar a vida como espectadores, de fora, distanciando-nos do redemoinho em que inúmeras vezes nos encontramos, vemos que tudo contribui para que sejamos o que somos - cheios de virtudes e defeitos - e possamos ver o outro da mesma maneira, com um olhar mais compassivo e altruísta. E então compreendemos que as coisas se tornam boas, amadas e belas a partir da nossa perspectiva, quando usamos as lentes da verdade interior que sussurra dentro de nós e que teimamos em abafar, iludidos pelas luzes exteriores, como insetos em torno de uma lâmpada.
O mais bonito nesse processo é que quem retorna dessa viagem interior nunca mais é o mesmo. Seus olhos se abrem de tal forma para a vida que seu maior desejo é possibilitar aos outros degustar do mesmo manjar com que se deliciou nesse percurso de encontro consigo próprio. Felizmente, essa é uma tarefa que cabe a cada um. Ninguém pode vivê-la por ninguém. Só nos é possível mostrar com a própria vida essa beleza que continua a existir e que é tão atrativa e desafiadora. Só nos é possível compartilhar, porque o que é bom, e amado, e belo - como diz, com outras palavras, meu amigo e conselheiro padre Guimarães - é para ser dividido com os demais. Só nos é possível estender o convite, dizendo: Esta é a manhã da consciência! / Voemos juntos! Desperta! Segue-me!, fazendo ressoar os versos do poeta oriental Kabir. O primeiro passo nessa aventura em busca de sua essência, porém, depende da escolha de cada um.

Do poder das palavras


Relendo uma das crônicas do paraibano Hildeberto Barbosa, em Os livros: a única viagem (Ideia, 2017), ri-me novamente com seu parecer acerca da voz de Drummond ao recitar o poema Memória. Não, o poeta itabirano não sabia recitar: "Sua voz, rouca, raquítica, cansada, quase inaudível e sem ritmo, atropela a fluidez melódica do poema, prejudicando sua doce e simples musicalidade". Nem todos que escrevem, sublinha o paraibano, leem "com a devida propriedade estética e emotiva a linha de seus versos".
De fato, recitar é arte para poucos. A impostação da voz, a tonalidade, o acelerar e o desacelerar de acordo com o ritmo do poema, o respeito à sua cadência melódica, a intimidade com o texto e com o autor, entre outros aspectos, entram em jogo no instante de recitar, porque recitar é atuar, é interpretar, não apenas ler, de forma mecânica e sem vida. Não se pode levar a palavra de alguém sem que haja uma transfiguração de si. Uma pessoa, ao recitar, se reveste de outra, adquire outra anima, e nesse intervalo entre o ser que recita e aquele que ouve acontece a magia do toque. A palavra inaugura um outro mundo em nós, quando nos deixamos tocar por seu mistério.
Isso me lembra aquela ode às palavras, feita por Cecília Meireles, em seu Romanceiro da Inconfidência: Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência, a vossa! É bem certo que no dia em que ouvi a própria poeta recitar um trechinho desse romance, fiquei um tanto decepcionada, pois imaginava sua voz tão etérea quanto sua poesia. Mas isso é apenas um detalhe frente à obra ceciliana – penso que, se recitasse conforme minha imaginação, ela não seria, definitivamente, humana, seria no mínimo uma criatura angélica!
Voltando ao poema, Cecília o escreve fazendo uma longa reflexão sobre o poder das palavras e o exercício do poder nas suas mais variadas instâncias, não apenas institucionais, mas também nas relações estabelecidas entre as pessoas na vida comum. Claro que, considerando o todo da obra, a noção de poder como o que provém das autoridades políticas é a que mais se destaca. Mesmo assim, é possível trazer os versos para um plano mais íntimo e fazer esta leitura: da palavra que confere vida àquela que condena, da que anseia por liberdade àquela que extermina, da que se cala por bem àquela que se cala e resulta em mal... Todo o sentido da vida principia na palavra - afirma Cecília.
Essas ideias de que somos pela palavra e de que elas guardam em si alguma força desconhecida, nós as ouvimos de outras formas, em diferentes contextos. Nos cursos de Letras, ouvimos que  a linguagem é o fundamento do homem, que o discurso revela o homem. Em situações cotidianas, escutamos que as palavras têm poder, que quem tem boca vai a Roma. Acredito mesmo nisso tudo, e dentre essas afirmativas é justamente a que se refere ao poder das palavras a mais instigante, dado o caráter de mistério que a envolve.
Um bom exemplo disso acontece quando começamos a trocar as palavras por nossa própria escolha: em vez de reclamar, agradecermos, em vez de maldizer, abençoarmos. O que há em nossa volta vai se transformando pela força que agregamos às palavras. Agradecer por respirar, por poder se mover, por ter o sustento de cada dia, por poder trabalhar, mesmo que isso nos custe, mesmo que, olhando ao redor, não vejamos nada além de esperança. Abençoar o dia, o trabalho, a casa, os filhos, o alimento, os problemas, as doenças, as pessoas difíceis com as quais precisamos conviver, é o reflexo de uma transformação que se inicia dentro de nós.
Já dizia o evangelho: não é o que entra no homem que o contamina, é o que sai dele, de seu coração. Se colocamos dentro de nós boas palavras, a tendência é que, de alguma forma, elas saiam e repousem sobre tudo que está à nossa volta. O nosso semblante muda quando agradecemos e abençoamos, e o contrário também é verdade: se tivéssemos um espelho bem diante de nós nos momentos em que reclamamos da vida - e olhem que muito das reclamações são, no fundo, sem propósito, pelo menos para uma grande parte das pessoas -, veríamos como nos transformamos, como entalhamos sulcos desnecessários em nosso rosto, como toldamos a luz de nossos olhos, como nos distanciamos de nossa essência.
A ciência também explica essa estranha potência das palavras. Agradecer e abençoar, emitir e receber boas palavras e pensamentos estimula a produção de ocitocina e dopamina, neurotransmissores que contribuem com o nosso bem-estar físico, mental e emocional, tornando-nos mais leves e menos ansiosos. Gratidão e infelicidade são estados de espírito que nosso cérebro é incapaz de sentir ao mesmo tempo.
O problema é que muitas vezes, apesar de sabermos de tudo isso, não conseguimos nos isentar do efeito das palavras negativas. Nossa condição humana e o contexto em que estamos inseridos vez por outra nos levam a pronunciar aquilo que nem sempre queremos. Falamos sem pensar e ferimos aqueles que mais nos são próximos, omitimos pensando demais e deixamos de fazer o bem ao outro ou acabamos fazendo o mal mesmo.
No entanto, nesse jogo de palavras em que fazemos a vida, há algo que se chama hábito. Habituamo-nos a acordar cedo, a escovar os dentes, a não comer de boca aberta, a ler, a fazer tantas coisas, por que não criar o costume de abrir nosso interior para acolher boas palavras e fazê-las sair nos momentos oportunos? Por que não retomar o costume de dar e pedir bênçãos, de agradecer pelo que se tem em vez de ruminar por aquilo que falta? Por que não parar de alimentar o espírito com coisas que não o elevam e se habituar a preenchê-lo com o que é bom e belo?
Talvez um instante de agradecimento, uma palavra bendita, uma canção bem elaborada, um poema bem recitado, em pequenas doses diárias, gradativamente aumentadas, seja um tratamento eficaz para que experimentemos de forma positiva desse poder que as palavras têm, ou melhor, adquirem quando passam por nós. É responsabilidade nossa decidirmos ser canais de vida ou de morte para nós mesmos e para os outros.

Sob a graça dos rituais


Não fossem os rituais, nossa existência estaria fadada ao fracasso. É na repetição dos gestos que vamos ressignificando a vida, a partir das memórias que eles evocam e da mensagem que transmitem: pertencemos a um determinado grupo humano, ou a vários, com suas marcas específicas, traduzidas nos gestos com que nosso corpo fala à nossa alma. O único perigo dos rituais reside naquilo que lhe é mais próprio: a repetição. Porque a repetição pode nos levar ao automatismo, e nisso perdemos o sentido daquilo que fazemos. Nesses tempos em que o discurso da falta de tempo anda tão arraigado às nossas vidas, corremos o sério risco de não mais atentarmos para a graça escondida no rito.
Penso nisso enquanto arrumo armários e gavetas, cheios de papéis velhos, com rabiscos de poemas, listas de compromissos, notas fiscais, exames antigos, cartões natalinos, entre outros artigos de celulose que vim acumulando ao longo dos meses. Sim, periodicamente realizo esse ritual de tirar todas as coisas dos armários e gavetas, limpar o espaço vazio e verificar, um a um, cada objeto e folha de papel, para decidir o que fica e o que deve sair. Mas confesso que, ao final de um ano ou no início de outro, como é o caso agora, tal atividade adquire outro sentido que não o de simplesmente pôr as coisas em ordem. Não sei se a psicanálise explica, mas arrumar o que está fora de nós é uma espécie de projeção de nossa necessidade de equilíbrio interior. Lembro de algo que li não sei onde: organização em demasia é sinal de desequilíbrio interno. Mas convenhamos: não dá para ir acumulando, empilhando, amontoando, e querer que a casa permaneça leve e arejada. Uma boa faxina é sempre bem-vinda, especialmente para começar o ano, literalmente, com cada coisa em seu lugar. Só assim abrimos espaço para o novo que sempre vem, como diria o poeta Belchior.
Divirto-me, frequentemente, fazendo essa tarefa. Vez por outra me deparo com uma foto solta de algum álbum, com um esboço de verso, com algum livro cuja leitura foi interrompida, e começo a relembrar o dia em que a foto foi tirada, a imaginar que poema poderia escrever a partir daquele rabisco, a querer me comprometer de verdade em continuar a leitura do livro que abandonara, muito embora haja tantos outros aguardando meus olhos na fila de leituras prazerosamente obrigatórias. E aí a faxina começa mesmo a demorar, porque esses detalhes vão me chamando a atenção e é impossível não me render, ao menos um tempinho curto, a eles.
Outro rito, entre os tantos ameaçados atualmente, é o que se dá quando comemos. A urgência da produtividade desenfreada vai suprimindo, aos poucos, até esse momento tão prazeroso que é sentar-se à mesa e apreciar a comida, seja ela qual for. Frequentemente, parecemo-nos com a personagem de Chaplin em Tempos Modernos: enquanto estamos ocupados, vamos engolindo a comida, sem ao menos olhar para ela, sem mastigar o necessário para lhe sentir o sabor. Não importa se é um prato trivial feito em casa ou se é um manjar servido em um restaurante. Comemos, e tudo parece ter o mesmo gosto de pressa.
Nos momentos em que aguçamos os sentidos envolvidos no ato de comer, coisas mágicas podem acontecer. Percebemos sorrisos na espuma do café, flores nas escamas das cebolas, borboletas nas maçãs, simetrias e formas as mais diversas que nos fazem pensar em como nunca estudamos geometria simplesmente contemplando o que comemos! Nunca me esqueci do dia em que, tendo acordado um pouco mais tarde, levantei-me às pressas para preparar a vitamina de meu filho. Peguei um mamão e, não sei por que razão, cortei uma rodela, em vez de uma fatia, como costumo fazer. Comecei a rir sozinha, olhando para aquela fatia que me revelava uma estrela, encarnada por fora e repleta de pequenas sementes escuras e brilhosas por dentro. Lembrei imediatamente do Operário em construção, que, ao olhar para sua própria mão, espantou-se - era ela quem construía toda a cidade! - e experimentou a dimensão da poesia naquele instante solitário, em sua casa vazia.
Oxalá possamos sair do modo automático e dar vazão ao ócio sadio de permitir ao nosso corpo e à nossa alma alargar-se um pouco mais, saboreando, com vagar, essa vida, naquilo que ela tem de mais repetitivo e, por isso mesmo, sempre fecundo!

Remédio bom é remédio ruim!


Se olhar, dói mais - era o que me alertavam. É só tampar o nariz, e engolir de uma vez - era o que me aconselhavam. Quando criança, ao me machucar, passavam água e sabão, mas depois vinha o mertiolate, que ardia, e muito. Se estava acometida de males sazonais, nada que um copão de mastruz com leite não aliviasse. Tenho impressão de que minha aversão a chás e demais medicamentos à base de ervas vem da infância, quando tinha que encarar aquele líquido verde espumoso cheirando a mato. Quem nunca torceu o nariz e o corpo todo a remédios que atire a primeira pedra. A lição que fica, no entanto, de experiências assim é a mesma: para o dodói passar, não basta o beijinho da mãe, nem o apoio moral do pai, há de haver o remédio que arde, queima, tem gosto horrível, mas cura. Remédio ruim é remédio bom!
Mas... e o coração? O que pode curar o coração ferido, machucado, cheio de dodóis invisíveis e assustadoramente reais? Que comprimido, elixir, infusão, em que dosagem e por quanto tempo, pode ser capaz de cicatrizar, ainda que lentamente, o interior de quem chora porque perdeu, ou porque nunca ganhou, ou porque sempre ganhou demais, sabendo que, a bem da verdade, ganhar demais é sempre perder demais?...
Psiquiatras prescrevem medicamentos para tratar de ansiedade, distúrbios comportamentais, entre outras mazelas que afligem a alma. Mas alertam: só isso não é suficiente. É preciso fazer terapia, com psicanalista ou psicólogo. E lá vamos nós, que sofremos, em busca de um remédio, alguns em busca de um milagre, que nos desafogue de nós mesmos. E nos deparamos com pessoas que simplesmente nos escutam e nos questionam - simplesmente! -, e saímos dos divãs e poltronas mais perturbados do que quando lá chegamos. Precisamos de chacoalhadas que removam a poeira de tudo que é mal resolvido em nós. E o remédio parece começar a surtir efeito: arde. Alguns, mais ousados, adentram o próprio espelho, outros permanecem paralisados diante dele, e há aqueles que simplesmente dão as costas e vão embora, talvez por não encontrarem em si próprios a força que os faça mover do lugar um só grãozinho de poeira, a fim de que tudo permaneça confortavelmente como está.
Lembro de uma vez ter ouvido uma conversa entre duas mulheres que estavam ao meu lado. Uma delas comentava que essa história de autoconhecimento só serve para a gente ficar se analisando o tempo inteiro e deixar de viver. Para piorar, nessa análise pessoal só tendemos a enfatizar o que há de negativo, de feio, de errado, em nós. Por isso muita gente foge. Não deixei de rir, intimamente, e de certo modo concordar com o que a mulher defendia. Porém, nesse processo há sempre algo de bonito, que é esse inacabamento do ser humano, as transformações pelas quais vamos passando e que afetam diretamente aquilo que estamos sendo naquele momento e aqueles com os quais nos relacionamos. Quando vamos nos desvelando a nós mesmos, pode haver um certo deslumbramento, e choramos, e rimos, e refletimos que, na verdade, nada do que é humano deveria nos surpreender, nem as virtudes nem os defeitos.
Lamento muito quando vejo em reportagens os índices relativos ao consumo de ansiolíticos e antidepressivos, quando sinto, bem próximo a mim, inúmeros jovens e idosos relatando que, em razão de ausência de diálogo e de tantas outras coisas fundamentais, ferem-se das mais diversas maneiras e tentam, inclusive, desistir da vida... Porque vivemos num tempo em que nos empurram goela abaixo verdades que não correspondem, na maioria das vezes, àquela verdade que palpita dentro de nós. E me recordo do que disse Chaplin no discurso final de O grande ditador:  "pensamos em demasia, e sentimos tão pouco", porque "criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela". Quando apenas tomamos medicamentos para o que nos aflige a alma, estamos apenas usando de paliativos que não vão ao cerne do problema. Quando apenas tentamos nos conhecer melhor, percebendo nossas motivações, estamos apenas aliviando o peso de nosso fardo.
Mas nada disso se compara ao remédio que efetivamente põe um fim aos nossos dilemas: o amor. Podem me chamar de romântica, se quiserem, mas não há nada de romantismo nisso, nada de melosidades açucaradas, nada de clichês. Porque o amor, efetivamente, não pode se valer desses estratagemas à la sessão da tarde ou novela das seis. Amorzinho que se desmancha em choro à menor contrariedade, que manda cartãozinho dizendo para continuarmos assim mesmo, porque mudar estraga.
Amor, amor mesmo, é igual remédio de infância: tão ruim que chega a ser bom. Tão bom que chega a sarar o que quer que sangre, embora faça sangrar. O amor em geral atenta contra a nossa natureza egoísta, que quer tudo e todos de nosso jeito. Sim, o amor, sobre as feridas, arde, queima, machuca, arranca pedaço, dilacera, tritura, mas é lá de dentro de nós, do mais profundo de nós, que ele pode causar essa revolução, gradual, que nos impele a fazer tudo o que não é da nossa vontade, mas contra a nossa vontade e em favor de nosso crescimento enquanto ser humano. E quando vislumbramos tais mistérios aparentemente contraditórios, obviamente depois que o nosso sim ecoa longo e contínuo, o amor nos faz sorrir, o amor nos diviniza.
Aí, sim, começamos a sarar, não por causa da promessa envolta em tarja preta, nem devido a uma análise racional sobre o ser, mas em virtude de um enamorar-se por uma melhor versão de si mesmo.

Das vantagens de escrever cartas


     Outro dia, Manoel Onofre Júnior nos falava do hábito de escrever cartas, outrora tão caro, porém hoje tão raro, nesses tempos de tecnologias instantâneas, quando a doçura da espera parece não mais nos comover. Queremos a mensagem rápida, pois não podemos perder tempo. Mas como se perde tempo, porque todo o tempo é gasto na leitura de mensagens por meio das redes sociais, multiplicadas como um vírus que se alastra sem que nós ao menos pensemos em duvidar da veracidade delas. Críticas a esse modelo de comunicação? Tenho lá as minhas, embora muitas vezes me veja presa a esse tipo de - se pudesse usaria umas aspas bem grandes - "comunicação".
     Ainda criança, lembro-me de que, para comemorar o dia dos pais, as professoras nos orientaram a escrever uma carta para nossos pais. Noutra oportunidade, escrevemos telegramas - dou-me conta, agora, que se um adolescente estiver lendo este texto vai recorrer ao Sr. Google para descobrir o que significa tal palavra - para expressar nosso respeito e amor àqueles que nos trouxeram ao mundo e que, em muitos casos, nunca tinham escrito nem cartas nem telegramas. Era o caso de meu pai. No dia em que a carta e o telegrama chegaram, foi uma alegria só, acho que para mim a porção foi dobrada, porque fiquei contando quanto tempo demorava para a correspondência chegar. Tão mais fácil seria eu mesma entregar aquelas linhas escritas para alguém que estava tão próximo de mim, ser eu mesma remetente e carteira. No entanto, como cabe na maioria das vezes à escola perpetuar esses velhos e bons costumes, a mensagem seria escrita em sala, envelopada, selada e depois entregue à professora, que colocaria todas no correio, porque somente assim poderíamos, por um momento que fosse, exercer nossas habilidades de escrita num contexto social real - e lá vem Bakhtin com seus gêneros discursivos para confirmar o que estou dizendo!
     No dia em que ouvi a campainha tocar aquele diiiim-doooom parecido com o dobre de um sino, corri para a porta de casa. Espiei pela fresta da janela e vi o carteiro, com sua farda azul e amarela, a bolsa grande ao lado, a bicicleta amparada entre suas pernas, do outro lado do portão de ferro pintado de marrom. Fui chamar meu pai, porque ainda era criança e não ia sozinha abrir o portão a um estranho, muito embora não houvesse perigo algum - é difícil para muitos acreditar que em Mossoró as casas podiam ficar o dia inteiro de portas abertas, ou apenas fechadas, sem tranca alguma, mas é verdade. Bom, meu pai foi até o portão receber a correspondência, e eu, dentro de casa, espiando tudo, o coração saltitando por ver o carteiro chegar, uma semana depois do envio da carta. Essa sensação que me acometeu em virtude da espera, senti outras inúmeras vezes, com o semblante radiante ao ver uma carta entre as mãos e sob meus olhos atentos.
     Na minha adolescência, era comum ver nas revistas um espaço destinado a pessoas que buscavam se corresponder com outras e, para isso, enviavam seu endereço postal e algumas informações, como idade e interesses pessoais. Havia quem quisesse se corresponder e travar amizades em virtude de assuntos os mais variados, desde admiração por algum artista até o ato de colecionar selos e papéis de carta. Um dia, vi numa revista o endereço de uma menina que morava em Portugal, e decidi escrever para ela. Passamos um tempo nos falando por cartas, mas não durou muito, acabamos deixando de lado uma amizade que bem poderia ter permanecido viva por mais tempo. Coisas da vida, uma hora temos as pessoas bem perto, noutras, distante, depois elas tomam outro rumo, nós também, e assim vai se desenrolando a nossa trajetória neste mundo.
     Jovem, durante minha graduação, foi a vez das cartas trocadas com uma amiga do mesmo curso e residente na mesma cidade, porém num bairro tão afastado do meu, que justificava essa amizade postal. Cursávamos períodos diferentes na Faculdade de Letras e Artes (UERN) e dificilmente conseguíamos nos ver e conversar durante a semana. Eram tantos afazeres acadêmicos que nos impediam de conversar face a face, que só nos restava escrever uma para a outra. Foi quando descobri a carta social. Fui toda feliz aos Correios comprar uma cartela de selos, cada um custava um centavo apenas, dava para enviar quantas cartas eu quisesse, e receber outras tantas quanto minha amiga desejasse. Era o paraíso! Falávamos de literatura, trocávamos poemas, ela, que ainda não dispunha de uma máquina de escrever - lembrem-se que estamos falando de um tempo em que computador era algo raríssimo, e completamente fora da posse da maioria das pessoas - mandava-me textos seus para eu datilografar na minha Olivetti verde-musgo, herança temporária de uma prima que morou na casa de meus pais. Passamos um bom tempo assim, nessa amizade tecida palavra a palavra, as cartas manuscritas indo e vindo, formando essa teia invisível entre bairros distantes de uma mesma cidade, por onde poderíamos, sempre que a imaginação permitia, equilibrarmo-nos e irmos ao encontro uma da outra, ao simples reler de uma carta. Porque se é bom receber e ler, melhor ainda é reler e degustar vagarosamente o que vai escrito na caligrafia de cada remetente.
     Em tempos mais recentes, troquei cartas com algumas pessoas de diferentes estados brasileiros, ávidas por literatura assim como eu. Confesso que já li mais, mas quantidade não vem ao caso, vale mesmo é a qualidade do que se lê. E pessoas que gostam de ler, em geral tendem a querer escrever também, para si mesmas, em diários, para os outros, em cartas, artigos de jornal, mensagens especiais para amigos, e o que mais for possível. Gostaria de escrever mais cartas, é verdade. Sentar-me à mesa e pegar uma folha em branco, preencher o espaço superior com o nome da cidade e a data, ficar me questionando que tipo de tratamento usar para cada destinatário, como vou começar, o que vou falar, que perguntas vou fazer, que confissões assumir... Isso leva tempo, o tempo da reflexão interior que as mídias contemporâneas frequentemente roubam de nós com suas mensagens prontas como fast-food, em série, sem a pitada de subjetividade e individualidade que tanto se reclama e pouco se constrói.
     Escrever à mão possibilita um nível de concentração muito maior de nossa parte, e quando se trata de cartas ainda mais, porque é a escrita de si mesmo que vai preenchendo a folha, esse espelho sobre o qual vamos delineando a nós mesmos e até descobrindo o que não sabíamos antes de pegar a caneta e começar a escrever. Falando não de cartas, mas de diários, Philippe Lejeune confirma em O pacto autobiográfico esse pensamento: "O papel é um espelho. Uma vez projetados no papel, podemos nos olhar com distanciamento. E a imagem que fazemos de nós tem a vantagem de se desenvolver ao longo do tempo, repetindo-se ou transformando-se, fazendo surgir as contradições e os erros, todos os vieses que possam abalar nossas certezas." Assim, um bom exercício, não só de escrita mas de autoconhecimento, é escrever cartas. Quem sabe não residiria aí um paliativo para a ansiedade e a falta de concentração que nos acometem hoje? Escrevamos, pois!

Das mortes que vivi


"Morrerás por idades imensas... até não teres medo de morrer..."
                Sempre que leio esses versos de Cecília Meireles, que estão num dos poemas de seu livro Canções, ponho-me a refletir sobre essa amiga que nos acompanha a vida inteira e nos espera no último umbral da existência, que pode ser daqui a uns minutos ou daqui a muitos anos. Nunca se sabe. Mas sempre se sabe, porque a finitude é inerente a toda vida. Nessas reflexões, a morte sempre me pergunta pela sua face oposta, o que é muito natural, já que ela é a mais interessada em como anda minha vida. Mas esse é o tipo de reflexão que dificilmente temos antes de passarmos pela experiência de perder alguém que amamos. Podemos ouvir nos noticiários sobre mortes, chacinas, tragédias, e ficamos comovidos com essas situações, mas nada se compara quando ela, a iniludível, se acerca de nossa casa e atinge quem nos é estimado.
                Lembro que aos catorze anos perdi um amigo. Um muro de pedra, continuamente atingido por fortes ondas, caíra por cima dele, em Tibau. A notícia de sua morte chegou num fim de tarde. No dia seguinte, fui à casa dele, uma casa humilde, na mesma rua em que eu morava. Fiquei na calçada, havia muita gente, amigos de escola, vizinhos, todos lastimando a fatalidade e tentando consolar sua mãe, que perdera o único filho. Descobri, nesse dia, que guardaria as recordações de meus mortos de outra forma, lembrando-lhes vivos. A mim, naquela manhã, era preferível trazer à mente um dia ensolarado na praia, quando eu, meu amigo e meu primo, que morava em frente à casa dele, disputávamos quem conseguia catar mais búzios na areia. Era melhor lembrar-me do sorriso de Alan com aquele sinal logo acima dos lábios, os olhos negros e o corpo franzino, do que vê-lo desfigurado dentro de um caixão.
                Não demorou muito, e perdi minha vizinha, dona Margarida. Foi-se com ela a voz que acordava os domingos cantarolando "se ela me deixou, a dor é minha só, não é de mais ninguém...", foi-se com ela o barulho ritmado do pilão que rescendia à carne de sol e cebola roxa, foi-se com ela a galinha cabidela, o puxão no dedão do pé, o riso galhofeiro, o cabelo ralo e escuríssimo apesar da idade e sua reclamação por não ter um fio branco sequer. Margarida Eufrásio, que fora rainha de carnaval nas antigas em Mossoró, deixava-nos órfãos, todos da rua se sentiam um pouco seus filhos, quando passavam em frente à sua casa e ela os chamava pelo nome, acenava, oferecia um café, sempre sentada em sua cadeira na calçada, exibindo alegre seu riso em seu corpo atarracado e imenso. Deve estar dançando e cantando em outras paragens, tenho certeza.
                Minhas últimas perdas dolorosas foram meus avós maternos, a quem devo minhas melhores recordações de infância. Vovó Eulira, com sua perninha aleijada, os dedos tortos, uns por cima dos outros, tanto que eu tentava imitar porque queria ser como ela, calçando aquela alpercata feita sob encomenda... Vovó Eulira, que assava pão francês de um jeito que só ela sabia, deixando a borda sequinha e o miolo ainda mole, que nos fazia sentar no banco de madeira do lado de fora da casa para tomar sopa às cinco e meia da tarde... Vovó Eulira, que pronunciava o L final das palavras com som linguodental, que sabia as capitais de inúmeros países do mundo, que ensinava os netos a falar inglês e cantava aquela música que até hoje não consegui encontrar, A francesinha... Vovó Eulira, que chamava todas as mulheres de neguinha com a maior inocência do mundo e rezava suas ave-marias à janela do quarto, ao amanhecer e ao entardecer. Sempre acreditei que ela iria antes de meu avô, porque sofria do coração, tinha contraído Doença de Chagas havia muitos anos. Mas quando ele morreu, vítima de um câncer, ela estava lá, já meio desmemoriada, mas ainda bastante lúcida para rezar por ele. Não passaram três semanas, e minha avó foi se encontrar com o companheiro de uma vida toda.
                Morreram meus avós e, consequentemente, morreu o lugar em que eles viviam. Modo de dizer, o lugar continua lá, mas não é o mesmo, só é o mesmo dentro de mim. A casa já não há mais, nem o pé de oiticica que ficava em frente, nem o pomar com suas romãs, limões, laranjas, seriguelas - ah, as seriguelas são um capítulo à parte, a estampa mais alegre de minha meninice! Nada lá é como antes, e ao dizer isso percebo os discursos da maturidade me atravessando, a consciência de que a morte, metaforicamente, vai perpassando minha vida, mas trazendo consigo o renascer de outras realidades. Sinto pena por saber que meu filho não verá a Camponesa, a fazenda de meus avós, como eu vi. Verá outra, porque outro é o tempo, mas saberá de mim que tintas a coloriam, se saberá!
                Outras pessoas próximas já se foram, porém essas de que falei são as que mais me deixaram lembranças. Natural, pela proximidade da convivência. Continuo sem querer fitar a face dos mortos, talvez isso mude, quem sabe. A certeza, porém, de que morro constantemente é a mais clara em mim. Todos os dias morro um pouco, no corpo e na alma, mas morro para tentar renascer de outro jeito. A essência da semente não se perde, mas ela precisa ser depositada no fundo da terra, ou no fundo do tempo, ou seja lá onde for, para ressurgir com outro dulçor. Talvez a vida seja isso mesmo, um constante morrer e renascer, até que chegue o dia em que renasçamos em outro território. Quem sabe um dia aprendamos a encarar o umbral definitivo com a serenidade de quem aceita o curso natural da vida e não se questiona desnecessariamente, certos de que a única coisa que vale a pena na vida e dá sentido à morte é o amor que damos aos outros.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Sobre as casas que habitam em nós





         Se a infância passa num sopro, quiçá fosse um sopro suave para todos nós. Porque uma infância suave é marca indelével na memória, vez por outra lá estamos nós a apalpá-la, acarinhá-la, em meio aos tantos afazeres e responsabilidades da vida adulta. E nesses momentos, emergem dentro de nós os lugares, as pessoas, os objetos e as sensações que ficaram impregnados em nossa alma e de lá nos acenam com o odor agradável das lembranças queridas.
Imagem relacionada            Portinari, quando pintava em suas telas as cenas de infância em sua pequena Brodowski, dizia que os lugares onde brincamos não saem nunca de nossa memória. Daí suas obras serem repletas de terreiros com meninos correndo, empinando pipas, jogando bolas, soltando piões, fazendo piruetas e brincando com animais. Bachelard, com outras palavras, dizia o mesmo, ao afirmar que os espaços têm sua própria poética, funcionam mesmo como metáforas de nossa existência e explicam, especialmente na linguagem imagética da literatura, como funciona ou se dispõe a alma humana. Por que, ao lermos certos poemas, contos, crônicas e romances, nos tocam tanto certas imagens relativas a lugares? Por que a simples menção de um lugar traz à tona personagens que por lá passaram, suas vozes, seus cheiros, seus trejeitos? A palavra, tratada imageticamente, tem esse poder de ressuscitar o que estava em estado de dormência.
            E foi pela palavra de um amigo, dias atrás, que fui tomada pela lembrança de um lugar e de tudo o que ele evoca em minha pessoa. Johann Freire falava, em sua crônica publicada no Espaço Jornalista Martins de Vasconcelos (Jornal De Fato), do dia em que seu avô falecera, deitado numa rede azul, esquecido dos passarinhos nas gaiolas. As descrições da casa, o quintal com todas aquelas árvores, o portãozinho de losangos brancos, e o pombo que visitou a casa durante sete dias seguidos, como um sinal divino de que seu avô estava voando em outras dimensões da existência... À medida que ia lendo, tais elementos suscitavam-me a lembrança da casa de meus avós maternos, na Fazenda Camponesa, em Umarizal, um dos cenários mais idílicos de minha infância.
            Meu avô, Sérvulo, lá chegara bem jovem, vindo de Brejo do Cruz, na Paraíba, oferecendo a meu bisavô seus serviços de construtor de cercas de pedra. Mal chegou e foi se enamorando de minha avó, Eulira, filha do patrão. Nascida em 1916, no mesmo ano em que tinha sido erguida a parede da barragem - até hoje está lá, incrustado nas pedras, "Camponesa, 1916" -, minha avó contraíra paralisia infantil, o que lhe rendeu o encurtamento e a deformação da perna esquerda.  Não sei se esse fora o motivo pelo qual ela foi ficando solteira, enquanto via as irmãs todas se casarem e constituírem família. Fato é que, quando conheceu meu avô, em meados da década de 1940, não demorou muito para que se unissem em matrimônio e passassem a morar numa casa simples, de paredes caiadas e sem alpendre, não muito longe da casa-grande.
A imagem pode conter: atividades ao ar livre            Minha mãe sempre conta suas histórias de infância, e é de tanto ouvi-la narrar as traquinagens das crianças, os trabalhos pesados no roçado de algodão, feijão e milho, a fartura dos tempos de inverno, com a casa de farinha e o engenho em plena atividade, além das muitas situações de choro causadas pelas surras que meu avô infligia aos filhos - uma desobediência ou má-criação sequer, o chinelo e a corda entravam em ação! -, que eu vivo, imaginariamente, numa Camponesa que não conheci. Minha mãe foi minha primeira contadora de histórias; estórias eu só vim conhecer quando comecei a ir à escola. Mas uma coisa são as histórias imaginadas, outra são as histórias vividas. E é dessas que mais gostamos de falar, porque recordar é viver de novo, como bem diz o adágio popular.
            A casa de meus avós tinha uma grande sala, com muitos armadores para caber as redes de todos os filhos e netos, portas e janelas de madeira, com tramelas que eu adorava ficar girando, uma máquina de costura, com o pedal onde minha avó punha seu pé sadio e costurava para toda a família, a muleta recostada ao lado e, logo acima da máquina, uma fotografia monocromática do casal, no dia de seu casamento. Na parede de frente à porta, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus e outra do Sagrado Coração de Maria abençoavam a casa, e, num recanto, o rádio de meu avô sobre uma mesinha e algumas cadeiras de ferro arredondadas, com pequenas almofadas servindo de assento, em frente a uma velha TV em preto-e-branco.
            O quarto de minha avó, ao lado da sala, tinha um cheiro característico de lavanda, o perfume preferido dela. Havia um baú de madeira e um pequeno caritó onde ela dispunha os santos de sua devoção, uma cama com gavetinhas acopladas nas laterais e um guarda-roupa pequeno, que, quando aberto, parecia entontecer os sentidos com aquele cheiro agradável que emanava. Mas o quarto seguinte, esse era o preferido dos netos, pois guardava os baús onde meu avô colocava as gostosuras trazidas da feira - as bolachas e as broas eram as minhas preferidas! De lá a gente sentia melhor o cheiro da galinha cozida, do arroz da terra, do pirão, do feijão de corda com farinha e coentro que minha avó cozinhava em seu fogão a lenha.
            A cozinha, aliás, era a alma da casa, seu teto baixo que deixava o ambiente mais aquecido, os feixes de lenha dispostos atrás da porta, os potes de barro com água fresca de chuva, tampados com pano de algodão preso em tiras de elástico, os copos de alumínio pendurados em ganchos na parede, as galinhas empoleiradas nas janelas, curiosas e gulosas, pedindo milho a toda hora, os pintinhos lá fora, numa algazarra festiva, o pé de laranjas doces e suculentas avistado da cozinha, os cercados onde os galos-de-campina coloriam a paisagem com sua cabecinha vermelha...
A imagem pode conter: árvore, céu e atividades ao ar livre            Nesse ambiente onde passava minhas férias escolares inteiras, via meu avô, perambulando pela casa à procura de seu chapéu de palha, muito cedo, para ir até o curral ordenhar as vacas. Ele passava por baixo de nossas redes, com a camisa desabotoada até o meio do peito, a calça de brim amarronzada, de cujo cós pendia um molho de chaves que tilintavam na cadência de seus passos - as chaves dos baús de bolacha e broa, as chaves do armazém, e outras inúmeras chaves que eu nunca soube que portas abriam. Não tenho lembrança de meu avô sério e carrancudo, pelo contrário, lembro-me dele sorrindo, brincando com os netos: colocava-nos no colo e cantava músicas, deixava-se cuidar por nós, que fingíamos tirar piolhos de sua cabeleira branca e estalávamos as unhas como se os tivéssemos matando, levava-nos para o roçado e nos punha em fila para depositar as sementes de feijão nas covas que ele ia abrindo à nossa frente, permitia que ficássemos agarrados à cancela para vê-lo tirar o leite das vacas, que ia espumando para dentro das nossas canecas. Mas andar em sua bicicleta de ferro, com farol aceso a dínamo, isso ele não nos permitia, não tanto pelo ciúme que tinha dela, mas pelo medo de acontecer algum acidente conosco, naquela bicicleta que só ele podia sustentar de pé.
            "A casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz frequentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo. Até a mais modesta habitação, vista intimamente, é bela." Essas palavras, escritas por Bachelard em seu livro A poética do espaço, dizem o que todos nós sabemos: não importa o tamanho nem a suntuosidade da casa, importam mesmo as memórias que ela imprime em nós, nascidas das relações afetivas entre as pessoas que nela moram ou por ela passam. Para encerrar a conversa, que as emoções já querem transbordar liquefeitas dos olhos, tomo novamente o discurso do filósofo e poeta francês, quando diz que "nunca somos verdadeiros historiadores, somos sempre um pouco poetas e nossa emoção traduz apenas, quem sabe, a poesia perdida [...] pelos poemas, talvez mais do que pelas lembranças, tocamos o fundo poético do espaço da casa" e concluo, por sugestão dele mesmo, com um poema que fiz para esse espaço mais do que vivo em mim:

Poema em branco

A alvura
da toalha sobre a mesa
e do leite na caneca,
do beiju de goma fresca
e do pão do forno a lenha,
do guardanapo estendido
marcando a segunda-feira,
do avental feito de saco
de algodão, casa do açúcar,
esse açúcar também branco
como o dia se escoando
pelas frestas entre as telhas,
entre os olhos alviclaros,
entre as nuvens dos cabelos
que à manhã se misturaram.
Ah, alvura, branca alvura
que não há mais do outro lado
desta mesa à qual me sento
com meus lábios ancorados
nessa transparência viva,

cor exata do passado!...

O que é bom, e amado, e belo

Releio o Diário de Anne Frank, na data de 7 de março de 1944, quando ela, pouco antes de completar 15 anos, avalia sua vida antes de ir pa...