terça-feira, 2 de junho de 2020

Navegando

Riozinho que passas

embaixo da ponte,

teus braços procuram

os braços do mar,

és um fio d'água

onde, equilibrado,

meu pequeno barco

segue a navegar.

 

Não sei que paisagens,

ao longo das margens,

meu sonho de nuvem

irá encontrar,

então vou guardando

aromas e cores,

que passam ligeiros

sobre o meu olhar.

 

Aromas e cores

enfeitam o barquinho,

o vento boceja

e o faz deslizar

nas curvas que as águas

do rio tracejam

sobre as folhas alvas

do tempo, a passar.

 

Portal Crescer - Blog Infantil: Barquinho de Papel


Na proa do barco,

sob o escuro céu,

o meu sonho bebe

canções de luar

e dorme sonhando

que as estrelas trançam,

com fios de luz,

as ondas do mar.

 

Navega, meu barco,

sobre o fio d'água,

é longa a viagem,

é curto o cantar!

Mas segue cantando

por este caminho

que tu escolheste

para navegar.

 

E quando chegares,

enfim, ao destino -

quem sabe se ilha,

quem sabe se mar -,

talvez tu desejes

ninar o teu sonho

e, entre as mãos do vento,

teu canto ancorar.




Kalliane Amorim


Bolha de sabão

Feira terá encontro para brincadeiras com bolha de sabão ...



Pequeno sopro de vida

em que flutua a saudade

de meu tempo de menina,

foi a brisa que te trouxe

até a minha varanda.

 

Eu te olho embevecida,

nácar de porcelana,

enquanto passas, tranquila,

plenamente colorida,

em frente à minha varanda.

 

Estás grávida do instante,

e em teu ventre tão redondo

cintilam os tons da alegria

que estremecem, em silêncio,

a luz na minha varanda.

 

Meu olhar vai perseguindo

a tua suave dança,

porém, de teu breve corpo,

apenas uma lembrança:

meu sorriso debruçado

sobre as grades da varanda.




Kalliane Amorim


Canção de luz

Fotografia: A direção da luz



Uma canção de luz
adentrou a casa vazia.
Que mão misteriosa
haverá removido a pedra
onde um coração jazia?

A canção de luz
despiu toda monotonia:
sob o negro manto
tantas formas e texturas,
tanta vida ali havia!

Essa canção de luz
estendeu sua melodia
e alcançou do coração
os punhos, a sufocar
as cordas da alegria.

Ah, canção de luz!
Abrirás todas as portas,
e todos seguiremos,
jubilosos, tuas pegadas!
Sobre este vale sombrio,
és o único estandarte,
alva flâmula a bailar
sob os ventos da verdade!




Kalliane Amorim

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Teu lugar

Penca de Corações Puro Amor | Manualidades navideñas, Corazones de ...




Se a tua casa
não era abrigo, refúgio e proteção,
não era ninho, calor e compreensão...

Se a tua casa
não era templo, altar e oblação,
não era colo, ombro e coração...

Se a tua casa
não era luz, melodia e redenção,
não era água, alimento e oração...

Talvez tenham ido longe,
muito longe, teus pobres pés...

Talvez tenha se perdido,
muito longe, teu pobre olhar...

É tempo de ouvir a tua casa dizer:
"É mais que tempo de voltar!
Ainda é tempo de rever
onde os passos vão pisar,
ainda é tempo de reparar
o que a tua mão tocar...
Volta, a tua casa é o teu lugar!"




Kalliane Amorim


Luzidios

Só a esperança não basta



E quando caírem as trevas,
e ameaçarem nos roubar
o riso, o canto, o olhar,
o abraço, o afago, o sonhar,
até mesmo esse sopro breve
da vida levando a alma
a no corpo se encontrar...

Quando caírem as trevas,
haveremos de alargar
os lábios, a voz, o peito,
sim, haveremos de entoar
a canção desconhecida,
há tanto tempo nascida,
mas oculta em algum lugar...

Haveremos de alargar
os braços para alcançar
quem amávamos e também
quem aprendemos a amar...

Haveremos de tecer
memórias para acolher
quem quer que possa chegar,
haveremos de luzir
em meio à escuridão,
haveremos de enxergar
a nós mesmos e aos irmãos,
haveremos de afagar
quem jamais pensamos ser...

Sim, haveremos de ser,
tão somente
ser.




Kalliane Amorim


Sina


Que sabem os montes e as tantas estrelas
da minha vigília nos campos da noite,
do corpo deitado sobre a relva fria,
sentindo, da morte, a carícia e o açoite?

Há muito converso com o que não me fala -
com flores, e águas, e areias, e ventos...
Sou mera aprendiz que calcula os espaços
por onde transitam as sombras do eterno.

Na minha algibeira, carrego silêncios,
com que Deus colore a branca paisagem
em torno da minha memória esquecida,
que ainda carece de pobres palavras...

Palavras distantes, como um horizonte
que veste meu corpo com as sedas mais finas,
tecidas nos velhos teares da aurora,
deixando-me, à mostra, nos ombros, a sina...

A sina de ter um olhar tão vazado,
que só se derrama, de tanto vazio,
por sobre o mistério singelo e sagrado
em cujo regaço procuro sentidos.

Há vozes serenas e quase inaudíveis,
cantando-me numa inefável linguagem...
Há muito converso com o que não me fala
na língua em que vejo minha própria imagem.

Há tanto desejo de me traduzir,
porém reconheço minha pequenez
diante do mundo que, sendo inocente,
jamais se envergonha de sua nudez...

Então, que também se desnude o meu ser,
pois quero entender esse estranho cantar,
poder transpassar os umbrais de minh'alma,
e as claras verdades, nas minhas palavras,
como um estandarte, poder carregar.





Kalliane Amorim

...

Créditos da imagem: 
Fotografia de José Bezerra (Ponta do Mel, Areia Branca - RN)

Diálogo íntimo




Ó lagarta listrada
porta-bandeira da primavera,
chegaste à minha casa
quando as chuvas escorriam
na vidraça das janelas.

Desarmaste-me, parada
sobre meus umbrais caiados,
pedindo-me um bocado
do fogo que me abrasa,
somente para poder
fabricar as tuas asas.

Lagarta, lagarta...
Dá-me entrar em teu casulo,
em teu mundo obscuro,
em teu grávido mistério...
Dá-me ser tua clara redoma,
dá-me ser tua donzela,
protegendo essa chama
que não descobriste em ti.
Pois que nesta minha casa
de sonhos e de palavras,
eu só tenho a poesia,
minha humilde oferenda.
Porém tu...
Tu podes voar mais alto!

Tu conheces o silêncio
que germina a primavera
nas sendas do meu olhar...
O silêncio que conhece
a nascente das palavras
com que teço minhas asas
para os voos mais incertos,
entre os vales e os montes
de minh'alma peregrina,
de meus olhos de menina,
que ignoram nome e verbo...

Mas que nessa busca infante,
redescobre os infinitos
alados, ocultos,
em seres como tu,
pequenina lagarta,
que trouxeste a primavera,
com seus pássaros,
com suas flores,
com suas cores e olores
para dentro de minha casa.




Kalliane Amorim

Ribeira

Quando a Poesia e a Música se encontram, nasce a Beleza. E esta sempre é um caminho de encontro com Deus, se carrega consigo a Bondade e a V...