domingo, 22 de novembro de 2020

Desprendimento

 




Deixai vossos sonhos

na escuma das ondas,

o vento os convida

para navegar

sobre o mar imenso

que em tudo se esconde,

por dentro da aurora

que veste os corais.

 

Deixai vossas mágoas

nas águas profundas,

onde luz alguma

se põe a traçar

o esboço das horas

perdidas e frágeis,

como ressequidas

estrelas-do-mar.

 

Deixai vossos cantos

de sal se vestirem,

e todos virão

em vós se banhar...

Deixai-vos singrar

os mares bravios,

deixai vossos remos,

deixai-vos levar...




Kalliane Amorim

Mares adentro

 




Singrando o dia,

sangrando à noite...

Gesto cantares

para acordar

auroras rubras

em meu olhar.

 

Singrando o dia,

sangrando à noite...

Ondas revoltas

no imenso mar,

somente o canto

pode acalmar.

 

Singrando o dia,

sangrando à noite...

Velas abertas,

mãos sobre o leme,

em que baías

vou ancorar?

 

Singrando o dia,

sangrando à noite...

Se nasci barco,

não quero o cais,

não quero as praias,

desejo o mar.

 

Singrando o dia,

sangrando à noite...

Mares adentro,

sem almejar

qualquer tesouro,

senão cantar...




Kalliane Amorim

Secretos desígnios



 

– Corramos! – sussurra o tempo

aos meus ouvidos atentos.

 

Que mais ele me dirá,

senão das eternidades

escondidas sob as vestes

escarlates do crepúsculo?

Que mais há de me mostrar,

senão efemeridades

moldadas pelos ventos

à beira dos precipícios?

 

– Corramos! – insiste o tempo

em meu peito tão antigo.

 

– Leva-me até onde ergueste

tua tenda, ó peregrino!

Toma-me, que a ti somente

pertence este meu destino!

Sobre teu corpo translúcido

deitarei minha pobreza,

deitarei minha nudez...

Ouvirei tuas cantigas,

tempo amado, tempo amigo,

e, ouvindo-as, saberei

os teus secretos desígnios.

 

– Corramos, como se fôssemos

um do outro enamorados...

 

– Corramos, antes que a noite

arremate o seu bordado...

Antes que, tesoura em punho,

ela corte para sempre

os fios com que teceste,

em meu corpo, as tuas marcas...




Kalliane Amorim

Novembro


 

Um pio agudo de coruja,

rasgando a pele da noite,

anuncia a tua chegada.

 

Vens trazendo, sob a língua,

um canto feito de sombras,

tecido nas madrugadas.

 

Vens trazendo, entre os dedos,

ramos murchos de ciprestes

e pedrinhas lapidadas.

 

Vens trazendo, em teu alforje,

uma lâmina, um espinho,

uma adaga prateada.

 

Vens trazendo, cavaleiro,

na negra crina do tempo,

a palavra mais exata.

 

Vens chegando e te inclinando,

vens em minha direção,

conheces a minha estrada.

 

De presente, vens trazendo

um espelho, uma ampulheta,

outro álbum de retratos.

 

Não diviso o teu semblante,

oculto sob um capuz

de cores tão desbotadas.

 

E antes mesmo que eu esboce

meu sorriso, vais embora,

sem dizer qualquer palavra.

 

Então ponho numa agulha

frágeis fios de memória

e costuro os meu retalhos

 

De cetim e de algodão,

de linho, veludo e juta,

e de sedas estampadas.

 

Vou tecendo eternidades

neste álbum que sou eu,

e o que sou, senão palavras?

 

Vou tecendo, enquanto espero,

numa curva do caminho,

anunciarem tua chegada.

 

Quem sabe se novamente

trazendo-me de presente

minhas horas olvidadas.

 

Quem sabe me dando a mão,

levando-me, para sempre,

para os campos da saudade.





Kalliane Amorim

Firmamento





O céu,
uma quimera
vestida de azul,
impalpável
como a luz,
o vento e teu coração...

Prefiro pensar Deus
ao rés do chão.




Kalliane Amorim
(Escrito em 22 de agosto de 2020)

A esta hora






A esta hora,
senhora,
não mais te reclama
a mobília,
o assoalho,
no recanto do teto,
a teia  e a aranha.

Nada mais te espreita
ou conhece teu nome.
Estranhas.
Cora a tua tez
saber-te inútil
a esta hora, mas vês,
estendes a mão,
alargas da porta a fresta...
Nesse trino gesto,
uma prece inteira:
da hora derradeira
a claridade te acompanha.

Já não és só,
e é quase dia, 
senhora.
Teu gado, oculto,
arrebanha,
que já te chamam,
lá fora...



Kalliane Amorim
(Escrito entre 20 e 21 de agosto de 2020)

Oferenda




Flores, sendo
o que são,
não a sós,
não em vão...

Vêm a vós,
a despeito
da estação...

À medida
mesma de
vossas mãos...



Kalliane Amorim

(Escrito em 20 de agosto de 2020)

Ribeira

Quando a Poesia e a Música se encontram, nasce a Beleza. E esta sempre é um caminho de encontro com Deus, se carrega consigo a Bondade e a V...